Edição #22: Como planejar a reposição com inteligência

Muita gente trata a reposição como um “plus”. Um ajuste fino. Quase um improviso.

Mas quem vive o varejo de verdade sabe:

A coleção não termina quando chega. Ela começa. E quem domina o jogo da reposição, domina o giro.

Hoje vamos falar sobre como usar a reposição como ferramenta estratégica para proteger margem, melhorar cobertura e evitar ruptura invisível.


Reposição não é reabastecimento. É decisão.

Ela precisa ser:

  • Intencional
  • Baseada em performance
  • Casada com o plano de OTB
  • E sustentada por indicadores semanais

Quando bem feita, ela estende o ciclo de vida útil do sortimento.

Quando mal feita, ela encobre erros e trava o caixa.


Como planejar a reposição com inteligência

1. Defina o ciclo de vida esperado por produto

Antes de pensar em repor, entenda:

  • Este produto foi planejado para girar em 4 semanas ou em 12?
  • Ele tem espaço para reaparecer em loja ou faz sentido esgotar e seguir a vida sem ele?

Produtos de moda pedem mais controle. Produtos de sustentação (básicos, contínuos) pedem mais solidez.

A estratégia de reposição começa no planejamento da coleção e não na leitura da venda.


2. Identifique os produtos elegíveis para reposição

Critérios clássicos:

  • Giro alto e estável nas primeiras semanas
  • Boa margem e baixo índice de remarcação
  • Cobertura abaixo do planejado
  • Produto com curva de grade consistente

3. Use o sell-out semanal como bússola

Um dos maiores erros é olhar só o “total vendido”.

  • Produto que vendeu 100 peças em 8 semanas = 12,5 p/semana
  • Produto que vendeu 100 peças nas 2 primeiras semanas = 50 p/semana

A média engana. A velocidade semanal (ou sell-thorugh semanal) é o que define se vale a pena report e em que profundidade.


4. Planeje a reposição já no OTB

A maioria das marcas calcula o OTB apenas para a compra inicial. Mas a reposição precisa estar prevista no plano:

  • Quantos % do OTB vão para produtos já lançados?
  • Qual o lead time mínimo da cadeia para permitir reabastecimento?
  • Qual o volume de segurança que fica no CD?
  • Qual a frequência da análise de ruptura e sell-through?

Se a reposição não está no OTB, ela entra como improviso e desequilibra cobertura, margem e caixa.

Costumo dizer que para produto bom sempre tem OTB. Mas isso não pode ser feito sem critério.


Exemplo prático: camiseta contínua

Produto lançado com 500 peças. Na 2ª semana, já vendeu 300 (com giro alto e margem mantida). Decisão: repor 400 peças — com foco em clusters de alta performance.

Mas atenção:

  • Ajuste a grade com base na ruptura
  • Avalie se o produto ainda terá fôlego por mais 6-8 semanas
  • Trave o volume no CD e faça a distribuição com intenção

Reposição inteligente é alavanca de margem e giro.

Ela não serve para “consertar coleção”. Serve para proteger o que está funcionando.

E, quando bem feita, ela reduz a dependência de liquidações, melhora a saúde do estoque e reforça o papel dos produtos que sustentam a operação.


Semana que vem: Como pensar grade, curva e nível de serviço

Vamos falar sobre um dos pontos mais negligenciados no planejamento de sortimento: a grade.

  • Como evitar ruptura invisível?
  • Como garantir disponibilidade sem excesso?
  • Como conectar venda real por tamanho à decisão de compra?

Nos vemos lá!

— André Alcalde